Nunca escrevi nada sobre regulamentação das
mídias. Mas acho que o debate vai esquentar sobre os próximos meses, então vale
a pena começar a pensar neste assunto.
Na Semana Integrada de Comunicação, o Professor Reginaldo
Teixeira (UFSM) afirmou para uma plateia formada por estudantes de RP,
jornalismo e PP que quando a pauta do "controle da mídia" (palavras
dele) estivesse pegando fogo daqui a alguns meses, nós "ficaríamos
agarradinhos com Veja e outros medias contra a proposta do Governo".
Acho que foi uma provocação intelectual (o que é justo e digno), mas espero que
nunca precise ver essa cena de ter que estar do mesmo lado da Veja, Globo, RBS
e afins.
Vou explicar meus motivos. Mas já adianto que para escrever tudo, terei que escrever uns textos bem grandes. Por isso não compartilho no Facebook e deixo tudo aqui no blog. Nesta postagem, tratarei apenas da necessidade de regulamentação da mídia. Sem aprofundar muito em como eu acho que isso deveria acontecer e sem considerar a hipótese de controle e sem debater sobre democratização dos meios. Quero que você leitor entenda apenas a "origem" do problema.
Por que regulamentar as mídias é necessário?
A grande maioria dos jornalistas são defensores da liberdade
de expressão e de imprensa, sejam eles de direita ou de esquerda (você pode
questionar essa afirmação, mas há de reconhecer que eles defendem ao menos a
sua própria liberdade de imprensa). O problema começa quando começamos a observar
os conglomerados de mídia e o quanto isso influencia na prática do jornalismo
do país.
A família Civita, por exemplo, uma das mais ricas do Brasil, é a dona do grupo Abril. Eles controlam umas 40 revistas, mais ou menos, distribuídas
nacionalmente. São as publicações de maior alcance e maior renome no mercado,
como a Veja, Super Interessante, Playboy, VIP, Exame, Quatro Rodas, e até as de fofoca como Caras, Contigo e
Tititi.
Quando falamos em conglomerados de mídia, devemos nos questionar: será que os Civita deixariam que
alguma coisa errada da parte deles fosse publicada em alguma das suas revistas?
Acha que algo que prejudica o negócio deles seria publicado mesmo que seja
informação de interesse público? Será que eles não favoreceriam em suas publicações fatos que fossem de interesse econômicos deles? Eu acho que eles são capazes disso. E você?
O mesmo acontece com a Grupo RBS, do qual faz parte os
maiores jornais, rádios e emissoras do RS e também de SC, como: Zero-Hora, Diário de
Santa Maria, Diário Gaúcho, Rádio Gaúcha, RBS TV, e etc. Todos controlados
pela família Sirotsky.
De novo a pergunta: Você acha que os Sirotsky deixariam que os
jornalistas publicassem algo que fosse contra os seus próprios interesses? Acha
que eles publicariam coisas contra seus parceiros e aliados? Aliás, tivemos um
caso curioso em SC há algum tempo. O filho de um dos donos da RBS estuprou uma
menina e o assunto quase que passou despercebido pela imprensa do Estado. Não
fosse a internet, acho que ninguém teria ficado sabendo (por acaso, o
jornalista que denunciou a história foi encontrado morto depois. A polícia
chegou a conclusão de que ele havia cometido suicídio).
E o mesmo acontece com a Rede Globo de Televisão. A família
Marinho (a mais rica do Brasil) controla uma grande quantidade de jornais,
revistas, rádios e a maior emissora de TV do Brasil. E esses não só escondem
informação de interesse público como também tentam influenciar no processo
eleitoral brasileiro, e também criticam os movimentos sociais e ações
grevistas, assim como a Veja. A Rede Globo tem um passado negro na história do Brasil: foram favoráveis ao Golpe de 64, influenciaram as eleições de 89, sempre distorceram informações a respeito de manifestações e greves que eles não concordavam, etc.
Resumindo: eles não apenas escondem informação, como fazem
um escarcéu quando se trata de algo que é contra os grupos que estão contrários
aos seus interesses. Acho que é um direito da imprensa assumir lados e fazer
enfrentamento ao que eles consideram errado, mas não é justo que um punhado de famílias (menos de 10) controlem praticamente todos os mídias e influenciem mais de 80% da informação que corre pelo país. Pensando dessa forma,
até duvido que haja liberdade de imprensa de verdade no Brasil. Se os
jornalistas precisam se reportar aos mesmos interesses dos donos da empresa,
então é claro que tem muitas informações que vão para debaixo do tapete. Não
seria isso um tipo de censura? Não seria uma forma de impedir o jornalista de
realizar o seu trabalho de informar a sociedade e de questionar? Tenho certeza
que muitos profissionais que estão nessas empresas precisam reter informação
frequentemente. Pensando dessa forma, censura já existe no Brasil. Só não
acontece por parte do Estado, mas acontece por meio dos conglomerados de mídia.
Também há de se reconhecer que muitas pessoas só consomem informações por esses mesmos veículos. Logo, eles não tem um contato com as visões opostas e os contrapontos daquilo que é dito na Veja, na Globo ou na RBS. Assim, muitas pessoas ficam mal informadas, na verdade.
Fica claro para mim que uma regulamentação é
necessária. Não é justo que um pequeno grupo controle praticamente toda a
informação que circula na mídia brasileira. Não é justo que um punhado de
pessoas decida o que você pode e o que você não pode saber.
Como essa regulamentação vai acontecer é outra história que já não cabe neste post. Mas espero que você perceba que do jeito que está não dá
para ficar. Isso que estou observando apenas pelo aspecto do público
consumidor. Se formos colocar outros fatores aí, então você vai ver que existe
mais coisa para pensar. Mas sigo em outros posts...
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