Ontem quando a eleitora falou sobre o o menino na favela que foi morto pelo tráfico por causa de 50 reais, eu fiquei pensando muito no assunto. A mulher parecia sincera no desejo de querer que alguém resolva o problema do crime organizado e tráfico de drogas no Brasil. Mas, infelizmente, nenhum dos candidatos propôs algo que realmente fosse terminar com os traficantes. Resolvi escrever esse post só porque sei que no meu Facebook tem bastante gente que acredita que Aécio Neves e Dilma estão corretos em defender um combate mais forte às drogas.
Nas minhas aulas de marketing, há algum tempo, aprendi que enquanto houver demanda por um produto, haverá mercado para a oferta. Isto é, enquanto existir gente para consumir, haverá gente para vender drogas para esse público consumidor. É uma fantasia da população achar que aumentando o número de policiais, fechando fronteiras, metendo gente na cadeia e espancando usuários, que o consumo de drogas vai diminuir ou deixar de existir. Mesmo que todas essas medidas sejam tomadas, o mercado ilegal das drogas vai se remodelar, se reinventar, se transformar para atender a demanda dos consumidores. Até mesmo policiais entram no jogo de manter o sistema como está porque muitos são usuários, ou são corrompidos pelos traficantes ou mesmo tem o seu produto para a venda.
A proposta que se tem feito nas academias é de legalização. Assim, o Estado se apropria do mercado de entorpecentes e consegue tirar o usuário do contato direto com o traficante, minimizando assim os riscos de que alguém seja morto por 50 reais, como citou a eleitora do debate.
Mas a legalização é mal vista por 80% da sociedade brasileira. Muitos por motivos religiosos, tradicionais e por puro desconhecimento a respeito de cada uma delas. Tem gente, por exemplo, que acha que maconha é tão perigosa quanto o crack, quanto a heroína. Quando na verdade a maconha nunca fez uma vítima sequer. Diferente do álcool que é legalizado e causa milhares de mortes no mundo inteiro.
O debate em torno da maconha é mais forte porque muitos já reconhecem que ela não é tão perigosa assim como dizem. As pesquisas científicas já estão apontando até benefícios de seu uso, mas ela só não está disponível de forma legal porque temos a tradição de odiá-la.
Geralmente quem é contra acredita que liberando a maconha todo mundo vai sair se "chapando" por aí. Que um adolescente de 13 anos vai comprá-la tão facilmente na vendinha da esquina e que isso será perigoso até para quem não é usuário, que vai sentir desejo de usar e terá acesso mais fácil à maconha.
Contudo, é preciso alertar que da forma atual é mais fácil de encontrar a maconha e mais difícil saber quem é usuário dela. Os traficantes têm sofisticadas formas de distribuição dos seus produtos e muitos deles nós nem notamos. A maconha e outras drogas já podem estar acessíveis a seus filhos e você sequer sabe disso. Mas se estivesse legalizada, você saberia onde ela está e saberia se seu filho estivesse consumindo o produto legalizado. Seria mais fácil de trata-lo e fazê-lo abandonar o consumo desses entorpecentes.
Outra coisa que é importante saber é que existem várias propostas de legalização. Algumas falam que a maconha deve ser vendida nas farmácias com controle (como faz o Uruguai). Outros acham que deve ser liberado em clubes exclusivos para o uso, outros que acham que as pessoas devem ter o direito de produzir em casa para consumo próprio. Cada uma das propostas tem implicações diferentes. Mas não conseguimos evoluir o debate porque ainda vivemos a premissa religiosa de um combate ao mal por meio da força.
Ressalto que reconheço o perigo para a saúde que é a utilização de drogas. Não estou fazendo uma apologia ao seu uso, mas apenas reconhecendo que a atual forma de combate às drogas não funciona. Precisei me desprender de muitas tradições religiosas para entender isso como política pública e não como um valor moral da sociedade. Quer dizer, entendo o consumo de drogas como algo moralmente errado. Mas entendo que a legalização dela é uma forma de combate ao tráfico e que portanto isso não significa uma depravação moral da sociedade.