terça-feira, agosto 12, 2014

Novos Horizontes para Robin Williams

Antes de mais nada, espero que você não concorde com este texto. Mas espero que entenda onde está indo minha mente e que não pense que eu sou tão louco assim. Vou comentar algo que exige uma dose bem alta de cuidado e não quero motivar nenhuma pessoa desequilibrada a cometer uma loucura. Então, se você anda meio depressivo, é melhor parar por aqui...

Não desistiu? Então siga adiante, mas não faça nada que vá entristecer alguém depois..


Ok. Vamos lá.


Esses dias eu conversava com um amigo meu que falava que a música "Novos Horizontes" dos Engenheiros do Hawaii era sobre a iniciação à Maçonaria do Humberto Gessinger. Na minha cabeça, essa interpretação era pura bobagem. Se bem que não adiantava nada, meu entendimento da música é tão louco quanto o dele. Vai da percepção de cada um...


Eu interpretei "Novos Horizontes" como uma música que fala sobre depressão, ruptura e suicídio. Mas nesse último ponto, de forma bem "subliminar". Vou tentar explicar de uma forma clara o que me surgiu.


A música começa com os seguintes versos:


"Corpos em movimento

Universo em expansão
O apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais"


Quando ouço que o apartamento que era tão pequeno e que agora não acaba mais, lembro-me de alguns dias de tristeza meus em que a mente ia bem longe. Certa vez, quando tive alguns problemas relacionados ao estresse, um médico me perguntou se eu tinha "sentimento de fuga". Algo do tipo: querer abandonar suas atividades, seu trabalho, família, e partir para um outro rumo qualquer. Sim, eu tinha esse sentimento de fuga. Acho que nunca fui feliz fazendo o que os outros mandavam ao invés de fazer o que eu mesmo queria fazer. E isso te deprime em certo momento da vida. Quando você nota que está dedicando muita vida para que os outros se deem bem as suas custas, você fica chateado. Mas o pior de tudo é quando você se sente preso a sua realidade. Como sempre fui pobre, não tive outras opções a não ser trabalhar por um mísero salário mínimo (Isso me lembra outra música - "No surprises"-, quando o Thom Yorke canta "A job that slowly kills you"...)

Em determinado momento, senti que aquilo estava matando a minha vida. Eu estava virando um tipo de escravo do trabalho, da vida, dos outros, de tudo. Passava o dia inteiro recebendo ordens, às vezes umas mijadas, umas indiretas, ganhando inimigos gratuitamente, aguentando o mau humor dos outros, usando botas de jardineiro na frente da tela de um computador, e ganhando um salário de miséria. 

Foi nesse momento que veio meio o sentimento de depressão. Aquele momento de "Não tenho para onde ir, mas não quero ficar". Eu poderia trocar de emprego, mas a realidade é a mesma em qualquer lugar. Não há escapatória quando você nasceu pobre. Uma hora você sente que precisa romper com tudo, que você tem que se desconectar dessa coisa louca e procurar um Novo Horizonte. Então, eu voltei para minha cidade natal para terminar a faculdade de jornalismo e fazer algo que eu gostasse. Diziam-me na época que o conhecimento abriria portas para mim, que eu teria outras oportunidades. Só que então o sentimento de ruptura se acentuou, mas isso não vem ao caso agora. Conto numa outra postagem em outro dia...

Entendo que "aquele sentimento que era passageiro" e que agora "não acaba mais", toma conta da gente. Num certo momento da vida, você percebe que tudo é ruim, tudo incomoda, tudo é problemático. Então você tem três caminhos a tomar: ou você abraça uma causa na qual você se engaja para o resto da vida e luta por ela, ou você desiste e vai para sua casa tentar ser um ignorante de novo para tentar feliz. (ignorance is bliss - Ramones), ou ainda se corrompe e tenta dominar os outros com a inteligência que você tem.

Eu tomei a primeira opção. Preferi abraçar algumas causas e lutar por elas para o resto da vida, ou até eu desistir. E quando se desiste, aí que é que começa de novo o problema...

Quando desiste, você sente que precisa de novos horizontes outra vez. Mas e se a vida não te dá mais opções? Você já se decepcionou o bastante para continuar e sabe que não vai conseguir ficar em casa de pijama assistindo TV, porque você não aguenta. Ignorância não tem nada a ver com você. E você também não consegue se corromper. Você fica num beco sem saída porque não sabe o que vai ser da sua vida...

Tudo o que você quer neste momento é "explodir as grades e voar". Você "não [tem] para onde ir, mas não [quer] ficar". Precisa se libertar de alguma forma, mas não sabe como. Até que então, surge a ideia mais louca que poderia surgir. Você sente que a vida chegou ao final e que você não tem mais nada para fazer aqui. Que é hora de parar porque continuar a existir aqui te faz infeliz.

"Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá"


A gente ainda não conhece o outro lado. Mas quem pensa em ir, supõe que esse outro lado exista ("todo suicida acredita na vida depois da morte" - Engenheiros do Hawaii)

Pensar na morte chega a parecer tentador. Pode ser um mundo maravilhoso, mais legal, menos doloroso... quem sabe? Em contraste com essa vida triste que a gente tem aqui, explorar um mundo novo pode parecer interessante... E é neste ponto que se percebe que "O que não tem fim sempre acaba assim". Essa é a última forma de libertação que o indivíduo pensa que tem, e nesta altura ele já não tem medo porque superou a necessidade de vida...

-x-

Neste dia 11 de agosto, muitos ficaram chateados pela morte do ator Robin Williams. As notícias diziam que ele sofria de depressão, que lutava contra o alcoolismo e que era investigada a hipótese de suicídio. Quando ouvi a notícia, imediatamente lembrei da música dos Engenheiros do Hawaii.

Não fiquei triste por ele. Talvez ele tenha se libertado enquanto não percebíamos que somos nós que estamos presos aqui. Se foi suicídio mesmo, em breve saberemos. Mas fato é que essas pessoas não se sentem bem aqui na nossa vida. Não gostam de se sentir reguladas. Não suportam sua impotência diante da crueldade do mundo. E odeiam quando percebem que estão presas...

Acho que essas pessoas muito geniais chegam nestes pontos de crise que eu citei anteriormente mais facilmente. Deve ser complicado para elas perceberem que precisam de um novo horizonte e acabar não encontrando nada por aqui...

Caminhando por essas veredas, tem um texto que saiu no Estadão (mais lúcido do que este aqui) que explica até onde vai a loucura desses artistas.

-x-

Mas antes que você fique preocupado, não estou pensando em suicídio. hehehe

Aprendi a valorizar o que a vida tem de bom. Gosto de dias de sol, de jogar volei, de ver o mar, de tomar um banho de chuva, de conversar com meus amigos e não pretendo me desfazer desses momentos prazerosos tão cedo. Mas confesso que estou rompendo com muita coisa na minha vida. Já não penso em uma carreira de sucesso, por exemplo. Algumas coisas não têm mais valor e quero me desfazer para não ser infeliz. Mas não pretendo provocar minha própria morte para isso.

Mas se, de fato, o Robin Williams cometeu suicídio, não o julgo por isso. Nem o Phillipp Seymour Hoffmann, que morreu devido ao uso de drogas. Nem ninguém que achou que já estava na hora de sair. Aliás, acho que alguns ainda vão se despedir antes do que a gente prevê nesse meio artístico. Sempre suspeitei que esses caras muito geniais não gostam de estar presos, aí se "soltam". E acho que há alguns que ainda vão concluir a vida antes que a natureza decida levá-los.

São pessoas que estão explorando novos horizontes...


NOTA: É sempre bom retomar o que eu disse no início: "espero que você não concorde com este texto. Mas espero que entenda onde está indo minha mente e que não pense que eu sou tão louco assim".