Escrevi em uma postagem anterior a esta sobre a necessidade de regulamentação das mídias. Disse que a maioria dos mídias brasileiros pertenciam a apenas 10 famílias e que, portanto, pelo menos 80% de toda a informação que circula no país seria parcialmente favorável ao que essas 10 famílias desejam.
Para acabar com os conglomerados de mídia, uma das propostas que já foi feita é acabar com a chamada propriedade cruzada. Lembra quando eu falei dos Sirotsky que são donos de jornais como Zero-Hora, Diário Gaúcho, também da Rádio Gaúcha, RBS TV? Então, se a propriedade cruzada fosse proibida, os Sirotsky não poderiam ter todos esses jornais, rádios e emissoras na sua mão.
Desta maneira, os meios seriam democratizados e não veríamos mais apenas um pequeno grupo de pessoas comandando a maioria dos mídias e influenciando na informação que chega a maioria da população. O objetivo é fazer com que mais pessoas comandem jornais, rádios e emissoras de TV, para que as informações que chegam ao grande público sejam mais plurais e apresentadas com contraponto.
Contudo, não é apenas isso que está em jogo. Explicarei agora um outro problema que pode ser resolvido com a democratização dos meios.
A última vez que vi o presidente do sindicado dos jornalistas do RS, se não me engano, vi ele comentar que propriedade cruzada já é crime. Contudo, essas empresas utilizam o selo de "Grupo RBS", por exemplo, para justificar o comando de tantos meios de comunicação.
Provavelmente numa proposta de democratização dos meios, as leis seriam endurecidas e a propriedade cruzada seria proibida até mesmo nos termos de um "grupo" de mídia. Talvez você que não é da área da comunicação considere isso algo desnecessário, mas para quem é do jornalismo, terminar com os conglomerados de mídia é algo fundamental. Até mesmo pela questão trabalhista, digamos assim.
Há algumas décadas atrás, a maioria dos jornalistas que saía da faculdade, saía sendo especialista numa área específica, por assim dizer. Ele era um repórter fotográfico, ou era um repórter de televisão, ou era um repórter de jornal impresso, ou era um editor de vídeo, ou era um repórter de rádio, etc. Cada uma das áreas em que atuava tinha sua características específicas. Assim, se ele seguia a sua carreira em um meio de comunicação, seria muito difícil que alguém tomasse o seu lugar vindo de outra área. Era quase impossível que um jornalista de jornal impresso pudesse tomar o lugar de um jornalista de televisão, por exemplo.
Mas com o advento da internet, os conglomerados de mídia acharam uma maneira de extrair mais de seus trabalhadores com menos custo. Surgiu, então, no meio comunicacional o termo "repórter multimídia". Esse sujeito sai da faculdade sabendo trabalhar em rádio, TV, impresso e web, sendo um "especialista" nesses quatro meios.
O que seria muito bom para o jornalismo se o capitalismo não falasse mais alto dentro das redações. Os empresários começaram a pensar: eu tenho um jornalista que faz o trabalho de 4 pessoas, então eu posso demitir outras 3 e ainda não terei o rendimento comprometido.
Provavelmente foi assim que neste ano mesmo a RBS demitiu 130 profissionais. Suponho que eles sobrecarregaram mais os "repórteres multimídia" e mandaram embora aqueles que estavam acostumados a trabalhar em apenas um meio de comunicação.
E o que tudo isso tem a ver com democratização dos meios e regulamentação das mídias? Simples. Isso acontece por causa da propriedade cruzada. Esses repórteres multimídia atuam em vários veículos diferentes dentro do selo do Grupo. Por exemplo: o cara pode escrever para Zero-Hora, ao mesmo tempo em que tem que atuar na Rádio Gaúcha e também participa de algum programa da RBS. Já vi falar de alguns casos de pessoas que trabalham dessa maneira, mas prefiro não dar nomes.
Com o fim da propriedade cruzada, o jornalista vai trabalhar apenas dentro de uma empresa. Claro, pode ser que ele seja um repórter multimídia dentro dessa única empresa. Por isso o debate tem que ser mais profundo dentro dessa história de regulamentação das mídias. E por isso deve-se observar os interesses de quem quer propor a regulamentação. Será que essas pessoas estão se importando com o modo de trabalho dos profissionais da comunicação? Se não estiverem, é papel nosso alertá-los de que existem muitos pormenores a serem pensados. Mas para isso, é preciso vencer um outro problema chamado "controle das mídias".
É claro que os donos dos conglomerados de mídia não ficarão quietinhos esperando alguém acabar com o negócio deles. Tentarão levar o assunto para a "liberdade de imprensa", que não é o que está em questão. Farão isso para desviar o real objetivo do debate.
Mas esse assunto rende um post separado. Até lá podemos ir pensando mais sobre esse assunto conhecendo melhor o que aqueles que são contrários a regulamentação das mídias. Foi por isso que coloquei aquele link no parágrafo anterior. Trata-se de um texto do Luiz Felipe Pondé falando em controle da mídia.
Até a próxima, pessoal.
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